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Redação modelo do ENEM 2019

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por: Equipe Flávia Rita

A prova de redação do ENEM 2019 ocorreu no domingo, dia 03 de novembro, e muitas pessoas querem saber como fazer uma redação nota 1000. Aqui você verá o texto da Professora Flávia Rita e uma pequena análise de como as cinco competências foram atendidas.

A prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2019 ocorreu no dia 03 de novembro e pegou muita gente de surpresa com o tema da redação. Ao contrário do que muitos esperavam, a prova exigiu dos candidatos discorrer a respeito de um tema mais específico, embora possa ter sido aventado em salas de aula ao discutirem tópicos como acesso à cultura e políticas públicas.

A expectativa, contudo, até o dia da prova, era de que seriam cobrados assuntos de natureza mais geral, como sustentabilidade, inclusão social ou questões migratórias, por exemplo. Contudo, os candidatos tiveram que elaborar um texto a respeito do tema “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”.

A abordagem específica, centrada na indústria cinematográfica, pode ter pego muitos bons candidatos de surpresa, mas quem se preparou ao longo do ano, lendo a respeito de diversos assuntos de atualidades, com certeza chegou preparado para apresentar argumentos pertinentes e relevantes ao tema.

Por essa razão é importante se preparar com antecedência. Ainda que a prova contemple assuntos mais específicos, o acervo argumentativo construído pelo aluno ao longo dos cursos de oficina de redação, de teoria de português para o ENEM e de atualidades o municiaria com uma argumentação adequada às expectativas da banca.

Isso, claro, sem incorrer em fuga ao tema e com proposta clara e coerente de soluções possíveis para o problema posto.

Se você sentiu dificuldade em elaborar sua redação para o ENEM, então seria melhor pensar em treinar mais redação, mas, claro, sem ignorar a teoria. De nada adianta ter bons argumentos se a estrutura não colaborar para a compreensão. Por isso, não deixe de conferir nossa aula gratuita de Oficina de Redação para o ENEM 2019:

Vamos ver agora como foi o tema de redação do ENEM 2019?


TEXTO I

No dia da primeira exibição pública de cinema – 28 de dezembro de 1895, em Paris –, um homem de teatro que trabalhava com mágicas, Georges Méiles, foi falar com Lumière, um dos inventores do cinema; queria adquirir um aparelho, e Lumière desencorajou-o. disse-lhe que o “Cinematógrapho” não tinha o menor futuro como espetáculo, era um instrumento científico para reproduzir o movimento e só poderia servir para pesquisas. Mesmo que o público, no início, se divertisse com ele, seria uma novidade de vida breve, logo cansaria. Lumière enganou-se. Como essa estranha máquina de austeros cientistas virou uma máquina de contar estórias para enormes plateias de geração em geração, durante já quase um século?

BERNARDET, Jean-Claude. O que é Cinema. In BERNARDES, Jean-Claude; ROSSI, Clóvis. O que é Jornalismo, O que é Editora, O que é Cinema. São Paulo: Brasiliense, 1993.

TEXTO II

Edgar Morin define o cinema como uma máquina que registra a existência e a restitui como tal, porém levando em consideração o indivíduo, ou seja, o cinema seria um meio de transpor para a tela o universo pessoal, solicitando a participação do espectador.

GUTFREIND, C. F. O filme e a representação do real. E-Compós, v.6, 11, 2006 (adaptado)

TEXTO III

Disponível em: www.meioemensagem.com. Acesso em: 12 jun. 2019 (adaptado)

TEXTO IV

O Brasil já teve um parque exibidor vigoroso e descentralizado: quase 3300 salas em 1975, uma para cada 30000 habitantes, 80% em cidades do interior. Desde então, o país mudou. Quase 120 milhões de pessoas a mais passaram a viver nas cidades. A urbanização acelerada, a falta de investimentos em infraestrutura urbana, a baixa capitalização das empresas exibidores, as mudanças tecnológicas, entre outros fatores, alteraram a geografia do cinema. Em 1997, chegamos a pouco mais de 1000 salas. Com a expansão dos shopping centers, a atividade de exibição se reorganizou. O número de cinemas duplicou, até chegar às atuais 2200 salas. Esse crescimento, porém, além de insuficiente (o Brasil é apenas o 60º país na relação habitantes por sala), ocorreu de forma concentrada. Foram privilegiadas as áreas de renda mais alta das grandes cidades.  Populações inteiras foram excluídas do universo do cinema ou continuam mal atendidas: o Norte e o Nordeste, as periferias urbanas, as cidades pequenas e médias do interior.

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”, apresentando a proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumento e fatos para defesa de seu ponto de vista.


E agora, resta a dúvida: como você deveria elaborar sua redação tendo em conta as diferentes particularidades, tanto abstratas quanto práticas, que envolvem o tema? Veja como a Professora Flávia Rita escreveu!

Texto da Professora Flávia Rita elaborado no dia da prova

No atual panorama cultural brasileiro, o cinema vem perdendo espaço, quer pelo custo dos ingressos frente à renda média do trabalhador, quer pela ampliação de tecnologias “streaming”, como Netflix e Telecine. As produções cinematográficas, no entanto, são essenciais para o resgate épico, folclórico e mitológico das mais variadas formas de artes. Poder ir ao cinema constitui ato de acesso à cultura que não se pode desvalorizar diante das novas maneiras de exibição de filmes.  Is cinemas são espaços de convivência social, que agregam tanto na representação da realidade quanto na projeção do futuro e na recuperação do passado.

Os filmes exibidos nas grandes telas mobilizam a crítica e a sociedade. “Matrix”, por exemplo, interpretou as angústias do homem contemporâneo em uma perspectiva futurística. O filme “Capitão Fantástico”, por sua vez, possibilitou o debate acerca da educação domiciliar – tema em discussão no Congresso Nacional. Mais recentemente, o personagem “Coringa” ganhou roteiro próprio, o que permitiu a problematização da rejeição familiar e das doenças mentais. Seja por meio da recontextualização histórica, da sátira, do engajamento social ou do humor, o cinema tem muito a oferecer aos espectadores.

De acordo com Theodor Adorno, filósofo alemão que discutiu a cultura de massa, a construção de um sujeito social perpassa pelo acesso irrestrito à cultura. No Brasil, a Agência Nacional de Cinema (ANCINE), em regra, dispõe de poucos recursos no fomento a produções nacionais. No entanto, os baixos investimentos não prejudicaram a qualidade cinematográfica nacional. Filmes como Orfeu e Central do Brasil foram premiados internacionalmente no festival de Cannes, o que confirma a vocação brasileira para o cinema. Contudo, grande parte dos brasileiros não tem acesso aos locais de exibição dos títulos cinematográficos, em especial nas cidades de pequeno e médio porte.

Para alterar essa realidade, empresas do segmento devem criar campanhas de popularização do cinema, com ingressos mais acessíveis em diversos períodos do ano. Em paralelo, prefeitos de cidades menores devem buscar mecenas ou patronos para o financiamento de espaços de exibição. Ou ainda, podem subsidiar salas de exibição em suas cidades como forma de fomento à cultura. As mais variadas representações de mídia, por sua vez, devem garantir a divulgação das campanhas de popularização, com ênfase tanto a filmes nacionais quanto a estrangeiros, de curta e longa metragem.

Análise do texto elaborado

Para ajudar a entender um pouco os aspectos que fazem esse texto se enquadrar nas exigências da banca, vamos fazer uma pequena análise dele de acordo as cinco competências exigidas na redação do ENEM, conforme esclarecido no documento A Redação do ENEM 2019 – Cartilha do Participante:

  1. Domínio da modalidade escrita da língua portuguesa conforme a norma-padrão;
  2. Compreensão da proposta de redação e aplicação dos conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa;
  3. Seleção, relação, organização e interpretação das informações, dos fatos, das opiniões e dos argumentos em defesa de um ponto de vista;
  4. Demonstração de conhecimento dos diferentes mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação;
  5. Elaboração de uma proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

COMPETÊNCIA 1 – DOMÍNIO DA MODALIDADE ESCRITA DA LÍNGUA PORTUGUESA CONFORME A NORMA-PADRÃO;

O domínio da norma padrão avalia os desvios gramaticais do texto, considerados assim os erros de ortografia, acentuação gráfica e sintaxe. Além disso, a fluidez e a concatenação dos argumentos podem ensejar dedução da nota nesse critério sempre que a construção sintática implicar prejuízo à clareza.

Nesse sentido, observa-se que o texto da professora Flávia não apresenta qualquer incorreção gramatical, uma vez que os tempos verbais foram corretamente empregados, as regras de concordância, tanto verbal como nominal, seguiram as previsões da gramática normativa e os casos de regência não apresentaram qualquer desvio.

COMPETÊNCIA 2 – COMPREENSÃO DA PROPOSTA DE REDAÇÃO E APLICAÇÃO DOS CONCEITOS DAS VÁRIAS ÁREAS DE CONHECIMENTO

Aqui, analisar-se-á o texto em sua pertinência temática e sua tipologia. Ou seja, o corretor avaliará se o tema central foi devidamente atendido, tendo sido o objeto das inquirições e dos questionamentos do candidato,  isso feito de acordo com o modelo dissertativo-argumentativo.

Da mesma maneira, observa-se inexistir desrespeito à tipologia textual, uma vez que o texto acima apresentou formato próprio da modalidade dissertativa, visto ter trazido argumentos coerentes com relação às teses defendidas, organizados com a finalidade de gerar convencimento do leitor quanto à opinião do autor.

Ademais, há nítida predominância do caráter dissertativo sobre outras partes descritivas ou narrativas, as quais se encontram a serviço da dissertação.

COMPETÊNCIA 3 – SELEÇÃO, RELAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E INTERPRETAÇÃO DAS INFORMAÇÕES, DOS FATOS, DAS OPINIÕES E DOS ARGUMENTOS EM DEFESA DE UM PONTO DE VISTA

Na competência nº 3, avalia-se a organização textual e o encadeamento das ideias apresentadas. Em outras palavras, o corretor irá procurar por erros de estruturação ou por traços de desorganização, como, por exemplo, orações ambíguas, uso de pronomes relativos com referentes que não estejam claros e paragrafação inadequada (como ocorre com parágrafos frasais) ou que prejudique a clareza do texto, a qual será medida a partir dos seguintes critérios:

  • Seleção de argumentos;
  • Relação de sentido entre as diferentes partes do texto;
  • Progressão temática que revele planejamento prévio da redação, de modo que as ideias apresentadas sejam apresentadas gradativamente, segundo a ordem de relevância;
  • Desenvolvimento da argumentação, com o esclarecimento das teses apresentadas na defesa do ponto de vista escolhido.

Aqui, novamente, não se percebe falhas textuais aptas prejudicar a nota, uma vez que a apresentação das teses se deu de forma clara e a seleção dos argumentos trouxe pontos de vistas claros e pertinentes. Ademais, não se percebe qualquer traço de incoerência.

Por exemplo, já no tópico frasal do parágrafo introdutório, há a identificação do tema central da redação – o contexto atual da produção cinematográfica (“vem perdendo espaço”) –, sendo seguido da apresentação das estratégias argumentativas que serão desenvolvidas ao longo do texto – justificativa das políticas de promoção e de incentivo à democratização do cinema.

Vamos ver melhor:

No atual panorama cultural brasileiro, o cinema vem perdendo espaço (delimitação do tema), quer pelo custo dos ingressos frente à renda média do trabalhador, quer pela ampliação de tecnologias “streaming”, como Netflix e Telecine (justificativa da afirmação). As produções cinematográficas, no entanto, são essenciais para o resgate épico, folclórico e mitológico das mais variadas formas de artes. Poder ir ao cinema constitui ato de acesso à cultura que não se pode desvalorizar diante das novas maneiras de exibição de filmes.  Os cinemas são espaços de convivência social, que agregam tanto na representação da realidade quanto na projeção do futuro e na recuperação do passado (justificativa para a tese a seguir).

Nos parágrafos de desenvolvimento, são trabalhadas as teses apresentadas na introdução, de modo a promover um delineamento mais preciso dos problemas que envolvem o cinema nacional e da sua importância social. A partir disso, torna-se claro como as possíveis soluções (a serem apresentadas no último parágrafo) deverão atuar.

Igualmente, destaca-se, no quesito, a qualidade da argumentação trazida, pois cada tese se baseou em exemplos concretos – citação de filmes, como “Matrix”, “Coringa” e “Central do Brasil”,  e de órgãos responsáveis pelo setor, como a ANCINE –, e em problematizações precisas.

Com isso, restou atestada o planejamento textual prévio, ou seja, o planejamento estratégico das ideias a serem desenvolvidas na defesa da tese.

COMPETÊNCIA 4 – DEMONSTRAÇÃO DE CONHECIMENTO DA LÍNGUA NECESSÁRIA PARA A ARGUMENTAÇÃO DO TEXTO

A competência 4 mede a qualidade textual em termos mais superficiais que a competência 3. Enquanto essa é responsável por medir a própria qualidade argumentativa do texto, aquela se debruça sobre a qualidade formal, ou seja, sobre o nível de coesão, progressão e encadeamento das ideias.

Nesse caso, tem-se que o texto da Prof. Flávia Rita cumpriu o requisito ao seguir uma organização em quatro parágrafos, cada um deles semanticamente autônomo e bem dividido. Ademais, não houve prejuízo à coesão textual, nem à clareza dos argumentos, percebendo-se um uso correto e preciso de nexos, de modalizadores e de articuladores, além de uma organização hierarquizada, segundo a qual os argumentos menores precederam os maiores.

COMPETÊNCIA 5 – ELABORAÇÃO DE UMA PROPOSTA DE INTERVENÇÃO PARA O PROBLEMA ABORDADO, RESPEITANDO OS DIREITOS HUMANOS.

O quinto aspecto considera as propostos de solução para o problema debatido. Ou seja, o candidato não deverá apenas analisar os elementos que permeiam o tema, problematizando-os, mas, sobretudo, deverá trazer medidas que sirvam para resolver as questões mais graves.

A Cartilha do Participante sugere, para a elaboração do parágrafo de soluções, que o candidato procure responder as cinco perguntas:

  1. O que é possível apresentar como proposta de intervenção para o problema?
  2. Quem deve executá-la?
  3. Como viabilizar essa proposta?
  4. Qual efeito ela pode alcançar?
  5. Que outra informação pode ser acrescentada para detalhar a proposta?

A partir das informações que forem trazidas, espera-se que cada uma das questões acima seja tratada com nível de detalhamento adequado.

O texto da Professora Flávia Rita, atendeu a todas essas perguntas em seu último parágrafo, onde se encontra sua proposta de intervenção:

Para alterar essa realidade, empresas do segmento devem (Pergunta #2) criar campanhas de popularização do cinema (Pergunta #1), com ingressos mais acessíveis em diversos períodos do ano (Pergunta #3). Em paralelo, prefeitos de cidades menores (Pergunta #2) devem buscar mecenas ou patronos para o financiamento de espaços de exibição (Pergunta #1). Ou ainda, podem subsidiar salas de exibição em suas cidades (Pergunta #3) como forma de fomento à cultura (Pergunta #4). As mais variadas representações de mídia, por sua vez, devem garantir a divulgação das campanhas de popularização, com ênfase tanto a filmes nacionais quanto a estrangeiros, de curta e longa metragem. (Pergunta #5)

Percebe-se que foram identificados os sujeitos aptos a atuarem nas soluções do problema discutido – setor privado, na figura das empresas, e setor público, com atuação dos prefeitos de pequenos municípios. Também se vê uma proposta objetiva de medidas a serem tomadas – criação de campanhas e financiamento de espaços de exibição, por exemplo – e a identificação das diferentes formas de as viabilizarem – diminuição do preço dos ingressos e subsídio às salas de exibição nas pequenas cidades. dos possíveis resultados. Por fim, apresentou-se as consequências dessas medidas – maior fomento à cultura – e agregou-se, ao fim, com informações que detalharam a proposta – atuação da mídia.


O que achou desse texto? Acha que o modelo de redação que trouxemos irá ajudar você nas próximas provas? Ficaram claros como os critérios são avaliados em uma redação? Gostou de ver como a Prorfessora Flávia Rita planejou e elaborou seu texto? Nos avise, então, nos comentários 🙂

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